sábado, 1 de agosto de 2009


Quebrei o silêncio. Falei umas verdades. Dizem que todo mundo tem um limite, mas a sensação que eu tinha era que o meu só seria atingido quando chovesse no Maracanã a conta-gotas. Choveu. Eu gostava quando os outros falavam, falavam, falavam e eu ia tecendo psicologias baratas na minha cabeça, uma profusão de “achisses” sobre as histórias que iam desfilando repletas de detalhes e confissões e me faziam a pessoa mais contente do mundo. Porque eu sempre tive – e tenho – uma curiosidade enorme sobre o ser humano: o que ele pensa, faz, pensa que faz, queria fazer e não faz e faz sem pensar. Há tantas verdades! E eu aceito todas, porque não são minhas... eu não sou dona de nada! Ia tudo tão bem, mas eu falei. Eu gostava do silêncio. Mas estou me sentindo muito bem agora.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ela era a novidade
a falta de rima
a ausência do pudor.
O que eu tão bem tinha escondido
debaixo dos lençóis e dos vestidos.
Quando ela entrou... tudo foi pro espaço:
as boas maneiras, os sapatos envernizados,
minhas calcinhas de algodão,
Agora era só uísque no gargalo
e o cheiro dela na minha mão.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Só quando ele se foi é que me dei conta do que ele deixou. Senti um arrepio na espinha e um movimento interno que era como um vento desarrumando tudo dentro de mim. Junto dele eu tinha ficado metade, morrendo de medo que a hora passasse depressa, louca pra olhar no olho dele o tempo todo, pra não esquecer de nada depois. Como se eu tivesse essa escolha... como se um dia eu tivesse feito alguma escolha depois dele. A sensação era tão forte, que dava vertigem e uma vontade louca de correr nua pra rua. De pedir asilo a qualquer um: me beija, beija a minha boca, não me deixa morrer desse jeito!...


Foto: Jarek Kubicki
eu amo os sonhos: neles tudo é possível
as pessoas podem ter 3 olhos, 8 tentáculos
e serem absolutamente normais
às vezes eu sonho que o mundo
é uma espécie de fantasia
onde anões e fadas, bruxas, ogros e duendes
convivem com homens-morcego e vampiros sensuais
às vezes é um filme mezzo Lynch, mezzo Fellini
às vezes é um vôo ao som de Pizzolla
nada dessa vidinha burguesa-cotidiana-medíocre
cada dia é uma loucura a ser desbravada
quando eu tenho sonhos assim
eu nunca quero acordar...

domingo, 17 de maio de 2009

- Desde a primeira vez que a gente se falou você mexeu comigo. E sempre vai mexer. Eu posso estar casado, de aliança no dedo, que se você ligar pra mim... eu vou ficar de pau duro pra você.

Vou descolar o telefone do filho da puta. Quero ouvir ele gozar pra mim na frente da mulherzinha dele.

sábado, 16 de maio de 2009

Ele vinha ao atendimento quase todos os dias. Coisas de pessoa jurídica. Sempre uma pastinha debaixo do braço e um sorriso encantador. Pelo canto do olho eu sabia quando ele chegava. Pegava a senha e ficava me encarando enquanto eu fingia não perceber. Às vezes, no sorteio, caía no meu guichê. Brilhava todos aqueles dentes num simples "oi". Um dia nos cruzamos no ônibus. Fingi que não o vi. Não quis estragar aquele prazer cotidiano de nunca ter a intimidade que eu morria de vontade de ter com ele. Ah, se aquele menino soubesse de todas as coisas que eu pensei enquanto olhava para aquela boca... ah... se ele soubesse!


Foto: Jenni Tapanila

(com a permissão por escrito da autora)

Há coisas sobre mim que você não sabe e nunca vai saber. Não pense que é porque estou nua na sua frente, que você me desvendou. Que é por causa da vodka barata que misturei as letras e revelarei meus sonhos. Non, mon cher. Há coisas que não estão nos livros, nem mesmo nas entrelinhas. E há coisas que não duram... como eu e você.